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Sim, alguém teve a paciência para escrever aquelas palavras todas do fundo. Não, não fui eu.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Ai mãe...

Ontem presentearam-me com o conhecimento deste anúncio, que eu prontamente fui procurar no youtube e arrependi-me para toda a vida. Agora é a vossa vez de nunca mais conseguirem tirar esta musiquinha da cabeça! Carreguem no play e... foi um prazer ter-vos como leitores mais ou menos assíduos.



Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Elite


Nota: Este comentário social tem duas funções. Em primeiro lugar é um texto escrito por mim (não tenham medo), tão válido como post no Draft of a Life como qualquer outro. Em segundo lugar, ao contrário da situação habitual, este não é o primeiro local onde foi publicado. Na verdade este está noutro blog de que faço parte,
http://oreplicador.blogs.sapo.pt/
, é um blog muito bom, com grandes contribuidores dos quais tenho o privilégio de fazer parte. Quando tiverem algum tempo livre passem por lá! Convém mencionar que a situação é excepcional e no futuro não é suposto haver partilha entre publicações, sendo blogues individuais, haverão textos diferentes. Um abraço a todos... vão precisar.


Num país profundamente enraizado no seu adubo socialista pronunciar a palavra elite é provavelmente mais mal visto que vender o fígado da mãe no mercado negro ou violar crianças de 10 anos. Ainda me lembro com nostalgia da minha professora primária a ensinar-nos que éramos todos iguais. Todos iguais, sim… e não. Devemos nascer todos iguais? Sim, sem sombra de dúvida, todos devem nascer idênticos aos olhos do mundo e com as mesmas oportunidades. Isso não acontece hoje, e não cairia muito em erro ao dizer que nunca aconteceu em tempo algum, em parte alguma. Faz parte de nós, o ser humano gosta muito de rotular tudo e mais alguma coisa, facilita-lhe bastante a vida. Só podemos lutar contra o nosso inato, uma batalha perdida mas com bastante mérito.

Mas isto deve ser assim durante toda a existência do indivíduo? O empresário é igual ao padeiro? Sim, claro! E de modo algum por outro lado. A partir do momento em que ganhamos uma consciência, se for suposto um nível mais ou menos semelhante nas oportunidades oferecidas ao empresário e ao padeiro, cada um seguiu o caminho que escolheu. E aí são diferentes, os caminhos que traçamos definem-nos. Ambos têm mérito, o empresário gosta de pão de manhã e o padeiro gosta de pertencer ao conglomerado panificador do empresário que lhe confere benefícios vários. E até este ponto o conceito de uma elite não tem utilidade alguma. Continuemos no entanto.

A vida pressupõe trabalho, palavra empregada a vários níveis: o amor dá trabalho, ser educado dar trabalho, tomar as decisões acertadas dá muito trabalho. É impressionante a quantidade de areia que precisamos de tirar da frente dos olhos para encontrar o nosso objectivo! Falo por experiência própria e não me parece que esteja sozinho no assunto. E é aqui que entra a definição de elite, o grupo excepcional de pessoas com objectivos mais ou menos imutáveis e sem medo de trabalhar para os atingir. A elite não escolhe o caminho de menos resistência, não altera os objectivos quando vê uma montanha no meio. A elite constrói um túnel, a elite pesquisa, a elite aprende e não descansa (muito). De certa forma o trabalho faz parte do objectivo da elite, sem este ela sente-se “pobre”, pobre de espírito, claro. A elite não tem que ser um grupo mínimo de indivíduos, infelizmente é.

A elite não nasce necessariamente rica, não nasce necessariamente de uma família influente, culta, educada. Muitos filhos de famílias ricas ou com status não são mais que meninos estragados de mimos. E muitas crianças que se depararam com enormes adversidades para subir na vida hoje não podem olhar para baixo de tão alto que chegaram!

E a elite é pequena em parte por culpa de uma sociedade que faz da palavra tabu. “Ser grande” nesta sociedade poluída é vestir-se como os outros, ser mediano em ideias como os outros, almejar uma casa com piscina, um jipe e nada mais. “Ser grande” é não trabalhar muito, deixar isso para os paspalhos. É numa sociedade corrupta económica e socialmente que surge um grupo exemplar, chamem-lhe o que quiserem chamar, chamem-lhes cavalos ou burros porque vos levam no dorso para não abrirem mais o buraco onde vivem com o peso dos vossos rabos gordos.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Midnight sunset

The sun hides away from my face
as it sets out there in the horizon
and i think of the past, of the reason
why I think i'm hidden from grace

As it stoped staring you did start
looking through my sight for a heart
Why bother, maybe there isn't hope
that glorified pump just couldn't cope

Well, as the sun hid from my face
I wasn't sad, wasn't the case
but now it's midnight and I frown
so I write like I'm always down

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

O Paradigma da Bolacha Maria


Não, não me vou dedicar à dissertação gratuita da honrosa bolacha, quiçá mais importante que as Oreo. Hoje dedico-me à arte humana de cometer os erros estando ciente das consequências. Por vezes esses erros trazem prazer a curto prazo, por vezes não, é certo no entanto que existem consequências nefastas a longo prazo! Porquê o paradigma da bolacha Maria? Para explicar apresentarei uma personagem, o Albano, criança de tenra idade, localizada na faixa etária preferencial do Bibi e que de modo algum está relacionada comigo.

Seis e meia da manhã, hora de acordar. Albano estica-se e salta da cama para a sala. Liga a caixinha mágica, fitando atentamente nos desenhos animados da manhã, repetição da repetição da repetição do Tom and Jerry. Tanto faz, podiam ser os teletubies, ele comia se fosse preciso! Comer… sim, o seu estômago começa agora a uivar, afinal de contas o seu nome é Albano e como tal foi-lhe já traçada a sina de vir a ter uma proeminente barriga. Felizmente ainda desconhece a arte gourmet do tramoço e da mine… não por muito tempo. Mas por agora convém é largar os rodeios e ir comer! Comer o quê? O que está mais à mão! Avidamente Albano abre a despensa e retira o primeiro pacote que lhe vem à mão. Volta a guardar as saquetas de chá que acabou de retirar, desta vez olha para o que tem à sua frente: massa crua, latas, farinha, bolachas Marias. Ah, manjar dos manjares, a bolacha dos deuses! Freneticamente remove um pacote da escura caverna de alimentos, luta epicamente para descascar as rodelas de paraíso da casca plástica, começa a comer. Tudo isto se passou muito mais depressa do que dá a parecer, Albano é criança simples, de vocabulário simples e praticamente imutável (embora venha a aprender muitos nomes de ruas na sua futura profissão). Demorasse ele tanto a pensar quanto demoram a ler, já estaria prostrado à porta do sustento alimentício, sem forças e possivelmente com abutres sobrevoando a sua seca carcaça… adiante! Meio pacote já se foi e agora Albano surpreendentemente formula na sua ervilha rascunhos de pensamento: Ele bem sabe que se continuar a comer vai passar a tarde a evacuar um líquido semi-pastoso, com uma frequência pouco agradável e acompanhada por cólicas abdominais que levantariam montanhas se fossem motores de gruas. Ele sabe-o porque ainda no outro fim-de-semana tal aconteceu, é tudo menos novidade.

“Bah, paciência”, exclama Albano e começa a comê-las como se fossem sanduíches de ar, duas de cada vez, na vertical por vezes, deitado no sofá, agora está a dar o Scooby Doo, aquele cão um dia tropeça nos lábios vaginais (nota do autor, o Albaninho ainda não tem idade para estas coisas), está quase no fim e pronto, já comeu o pacote!

Foi uma tarde amena, talvez até solarenga, com o suave odor a relva regada do quintal do nosso rebento a inundar a casa. Pelo menos foi assim até às sete da tarde, em que a bolacha Maria, gentil por um lado, impiedosa por outro, acossou o jantar do dia anterior à rebelião, entremeado com água dos leitos intestinais. Pelas sete da tarde o suave chilrear dos pássaros da região foi trocado pelo atormentado gemer de Albano. Pelas sete da tarde a fragrância da erva deu lugar à do adubo rapidamente depositado na sanita do primeiro andar.

E assim Albano aprendeu que não podia comer o pacote inteiro de bolachas Maria. E no fim-de-semana seguinte repetiu-se a sequência novamente.

Este é o modelo primordial do paradigma da bolacha. Possivelmente o primeiro contacto que qualquer um de nós teve com o mesmo! Hoje, já “crescidos”, trocamos maioritariamente este exemplo primário por vivências complexas, erros repetidos na nossa vida amorosa, comida estragada, marcas de equipamentos cuja experiência nos grita “NÃO PRESTA” e frases tortas que expelimos na discussão com superiores nossos. Afecta o mundo inteiro, falando do mundo como o grupo finito de pessoas que não se contentam, que querem mais, que desejam desafiar o futuro para uma vida melhor, em suma, os idiotas que ainda não sofreram o suficiente. E os repetidos eventos pouco nos fazem crescer, talvez crescer para os lados no caso das bolachas, pouco mais. Mas tudo seria inútil se assim fosse. Seríamos escravos dos nossos impulsos, deprimidos por não poder fazer nada quanto a eles.

Mentira. Algo pode ser feito. Provavelmente uma atitude que poucos chegam a racionalizar, não obstante uma que eventualmente a maioria adopta! Como eu tenho pouco para fazer pensei no assunto e cheguei a esta conclusão: muito (MUITO) raramente mudamos a nossa atitude, o Albano vai continuar a sorver milhares de calorias todas as manhãs, apenas aceitamos o nosso defeito como intrínseco, algo que não temos vontade de alterar e convivemos com as consequências. Tal como as mulheres se vão continuar a meter com chulos, os homens vão continuar a querer as pegas que não lhes ligam e o Albano comerá bolachas a dar com um pau (a expressão mais idiota do ano, diga-se de passagem), em comum têm que as mulheres vão aceitar as suas injecções de penicilina para a sífilis estoicamente, os homens vão estoicamente aceitar o dia em que mandaram pastar as cabras e o Albano estoicamente aceitará o óleo que lhe corre pelo ânus ao sábado à tarde.

E todos viveram felizes e profundamente perturbados para sempre!

Desejo terminar esclarecendo que o nome de uma pessoa não a define de maneira alguma. No entanto é do conhecimento geral que eu vivo num mundo mágico e de modo às minhas teorias brilhantes resultarem precisam de se fiar muito em premissas que se afastam da verdade tanto quanto o nariz de silicone das celebridades. Não pretendo ofender ninguém e se alguém se sentir realmente atingido, peço sinceramente que se atirem de um penhasco, se não se sabem rir nem deviam estar aqui!

Sábado, Outubro 17, 2009

Apatia


Afundo-me em mim própria… nos meus pensamentos, pensamentos que não consigo exprimir. Penso na vida da minha mãe, árvore majestosa, erguendo-se orgulhosamente dos terrenos húmidos, partilhando-os com as suas amigas. Isto até a terem cortado, claro. O derradeiro sacrifício, deu a vida por mim, sua filha. História tão dramática seria apenas conveniente que fizesse algo de útil com a minha existência! Mas não, permaneço aqui deitada, indiferentemente abraçando o topo da mesa e olhando nessas duas lentes por onde vejo um vazio mais vazio que eu. Não sou útil porque não me dás utilidade alguma. Olhas para mim como se me fosse escrever a mim própria, mas és tu que tens a caneta, és tu que tens os dedos borrados de tinta de tanto mexericar, como se uma fonte inesgotável de ideias fosse jorrar do seu bico. Então deixa-me dizer-te a cruel verdade. É só tinta! Veio da Mitsubishi, provavelmente a fórmula até é parecida com a do óleo dos carros! Está fitando com ar tão estúpido quanto eu a tua nulidade criativa! Escreve-me! ESCREVE-ME! Apaga o meu branco infinito com algo que se expresse mais que a minha apática face! Deixa-me sentir a pressão da esfera a corroer impiedosamente sulcos no meu corpo, gravar uma obra que faça rir, que faça chorar, que faça algo!

Só um rabisco, vá lá… não suporto mais a luz do teu candeeiro a cegar-me todas as noites ou aquele pombo idiota que cheira a pão e velhos a olhar para mim pela janela como se eu fosse uma bolacha todos os dias. Há quantos dias me tens aqui? Meses? Anos? Não percebo o tempo sem as minhas colegas da resma para conversar, nem os presidiários são assim tratados, ao menos têm uma parede para riscar os sóis que nasceram desde que ali entraram, pelo menos até alguém os transformar num coador porque sim.

Talvez seja eu, trago-te má sorte. Deita-me fora então, perdurarei para sempre, seja num pacote de leite ou noutra página, uma página em que uma mulher não morena como tu, com um sorriso não como o teu e uma história não como a tua, com uma motivação diferente da tua, depositará um mar de palavras infindável, lindo, comovente. Tudo o que eu sempre sonhei…

Se ao menos chegasse ao caixote. Por entre um mar de quinquilharia, um oceano de objectos a discutirem banalidades num frenesim, como se amanhã já lá não estivessem, o caminho para o lixo é a viagem de uma geração inteira. E eu não tenho pernas, oh, quanto dava para ter pernas. Ou uma boca para gritar contigo, para te contar o que me deves dizer com a tua pena, para depois me lerem e lerem tudo isto.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Dança comigo

Olá minha gente! Como estais vós e respectivos quintais? É verdade, este calor está a ressequir as couves. Situação complicada.
Hoje venho "falar" de uma dança muito especial a que nos habituam desde cedo, desde aquele primeiro "eu depois compro-te o brinquedo" ou "deixa-me pensar nisso". É claro para todos que me refiro à dança da burocracia! Oh vultos animados de estaticidade, para sempre voando por milhas sem nunca sair do seu lugar, lutar contra um serviço administrativo é em todos os aspectos semelhante a dançar com um transexual, na medida em que após mil jogos de olhinhos, uma batalha feroz na escolha de quem guia e uma permanente sensação de que algo está errado, finalmente se chega ao "último destino" e é este o momento em que percebemos que não é nada do que queríamos, tudo está mal, demorou muito e é tempo da nossa vida que nunca poderemos reaver.
Mas o aspecto possivelmente mais destrutivo d dança burocrática é aquela sensação de que estamos aptos para um próximo embate... mentira das mentiras. E depois volta aquele sentimento de fracasso, de revolta e injustiça, mais uma vez estamos na estação de comboio à espera para comprar bilhete e o primeiro já vai em Fátima.
E o que dá a enorme vantagem aos serviços administrativos na maior guerra a nível mundial que travamos quase diariamente? Recorro mais uma vez à metáfora estapafurdia, aquele grão de arroz que na realidade é uma pedra basáltica. O homem comum que come arroz faz muito da sua vida, incluindo aquela percentagem minima da sua existência comum que devota a comer arroz. Mas a pedra no meio do pacote de carolino não tem função alguma senão rachar ao meio o molar do homem comum, deixando-o num profundo oceano de dor, a mergulhar num mar de contas de dentista, rios de dívidas e acabando por ter de recorrer à prostituição para o banco não lhe ficar com a casa junto ao lago.
Qualquer secretaria, incluindo todas as mulheres com bigode, é o equivalente a um espartano. Nascida e criada para infernizar a vida do inimigo, neste caso eu. Um eu mais profundo, o eu que todos nós somos quando precisamos do impresso amarelo nº 335, do papelinho inominado para pedir o passe na estação, levantar uma encomenda ou pedir um simples agrafador. Aquela criança profundamente transtornada que sente vontade de voltar ao útero a lidar com o empregado que se recusa a cessar a leitura da "Ana mais atrevida" para nos atender.

Perante um nível de malvadez tão exponencial, tão dedicado e meticuloso não há nada a fazer senão penar... ou há?

...não, não há mesmo nada a fazer. Apenas esperar pelo e-mail e rezar para que tenham pena de nós ou que a nossa cunha dê em algo se formos sobrinhos do Sócas.

PS: Eu nunca dancei com um transexual.

PPS: Acho eu.

Ursa Maior


Oh ursa das ursas, ergues-te no céu,
Reclamas o grandioso espaço como teu;
mas mesmo no meio da minha grande bebedeira
a tua silhueta não passa de uma frigideira


(Isto é o que acontece quando me dão comida depois da meia-noite... ou antes...)

Sexta-feira, Julho 31, 2009

O bom, o mau, o feio e o sitio onde comiam à sexta-feira e falavam de gaijas

“Estou farto desta freguesia e ela está farta de mim”, palavras para sempre gravadas na minha memória (com adulteração para omitir localidades que por decreto ideológico nunca são explicitadas).

Perdoem qualquer erro de sintaxe, ortografia ou frases sem nexo. Culpem os senhores que cultivam as uvas e os que fermentam as mesmas para embalar em garrafas de vidro.

10 anos… a maioria de nós nem sequer consegue identificar acontecimentos significativos de tal data… muito menos eu… mas, tinha eu também 10 anos, abriu um restaurante chamado “Toscana”. O Toscana foi palco de numerosos actos na minha encenação (leia-se novela mexicana) a que chamo de vida.

O Toscana nasceu na altura em que eu não sabia tomar decisões. Felizmente a minha mãe não tinha vontade de cozinhar certo dia e mandou-me ir buscar uma piza romana e um spaguetti bolonhesa. Mal sabia eu que essa formula perduraria por oito anos, mais dois com pequenas alterações. Mas o que é a comida? Nutrição? Muito mais! No Toscana, à minha frente e a meu lado, apenas sentei gente que me era significativa, desde a minha primeira namorada ao meu avô. O Toscana foi o local onde surgiram grandes teorias da conspiração, foi onde se planearam os maiores golpes contra a ignorância escolar, e ainda não me convenci que não foi lá que eu e o Bill Gates inventámos o Microsoft Windows (mas eu vendi-lhe os direitos por uma caipirinha).

Quase semanalmente, eu e o trio do não-sei-quantos (há 6 anos que estamos para lhe dar um nome) lá estávamos para mais um jantar sempre melhor que a maioria dos acontecimentos da freguesia, concelho, distrito e país (sem contar com a casa do avô Cantigas, onde as orgias são como o nariz do Sócrates, infindáveis). Nunca olhámos aquele espaço bege e vermelho como um restaurante, quanto uma casa onde queríamos ir, éramos bem recebidos e não dava vontade de ir embora. E existem várias razões para tal:

-Podemos começar logo pela mais simples, o dono não ostentava um pomposo bigode onde era notório o prato do dia de ontem.
-As paredes não eram forradas com azulejos para facilitar a limpeza do óleo utilizado na cozinha (embora tenha a dizer que desde que os outros estabelecimentos mudaram para variantes utilizadas nos ligeiros sem-chumbo, eu tenho aguentado muito melhor os seus gourmets – bitoque com ovo a cavalo).
-99% dos lugares sentados não estavam ocupados por gajos que proferem a palavra “tramoces” de 7 em 7 minutos (seriam 5 em 5 se não tivessem tão ébrios mas demora um pouco a processar).
-Não existia um barulho incessante que parece que estamos num concerto do Toni Carreira.
-A comida era feita de alimentos (sim, isto é importante).
-As mesas, cadeiras, chão, pratos, talheres e copos não ficavam colados nas mãos (embora coberto no segmento sobre azulejos, convém relembrar, já que tal evitava o embaraço de pensarem que estávamos a roubar quando simplesmente nos descuidámos e ficámos com um copo colado nas costas da t-shirt).
-98% dos pratos disponíveis não nos eram ditados por um senhor que claramente precisa de atenção médica ou um banho com um bom desincrustante para fogões e canalização. Os 2%, prato do dia, eram apresentados por alguém que não nos deixava a questionar acerca do conteúdo microbiano da refeição.
-As bebidas oferecidas variavam além da “mini”, “bagaço” e o “umtintinhe” (expressão utilizada universalmente para os “senhores” e outros benfiquistas se referirem a um copo de uvas fermentadas – atenção que tal é completamente diferente de vinho).
-A música de fundo excluía por princípio os (grandes) artistas da música popular portuguesa e os especialistas de clonagem de barulho de fundo de televisões analógicas (kizomba).
-Havia música de fundo.
-Havia música.

Já disse que o dono não tinha um bigode? É certamente chato entrar num estabelecimento e tropeçar logo na pilosidade de outrem. Especialmente quando tal nos faz cair, escorregar no chão oleoso até à cozinha onde um doutorado em “kizomba e estudos sobre estática de equipamentos electrónicos” está a cozinhar um bitoque com ovo a cavalo com óleo semi-sintético da repsol enquanto faz abortos às 30 semanas com a mesma espátula que usou para virar a carne e mudar de estação de rádio para a renascença. E depois temos que ir lavar as mãos, o que ainda é pior, isto porque tocámos na bancada de confecção para nos levantarmos.

Por tal ousadia, palavra proferida pelo dono, ao qual todos os meus leitores hão-de fazer uma vénia ou entregar a certidão de óbito na junta, o Toscana não era o local mais bem querido pelas grandes massas da vizinhança. Recordo acontecimentos como um afável gentleman que arremessou cinzeiros de vidro ao proprietário por não lhe servir mais alcóol ou mesmo quando este mandou calar os cavalheiros da litrosa, refiro-me claro aos chulos que preferem pagar uma imperial para ver o derby no ecrã gigante enquanto fazem tanto barulho quanto quando batem na mulher em vez de simplesmente comprarem a sportTV. É de certa forma normal, ele tentou alterar algo no sistema, este reagiu com repulsa, tentou ostracizá-lo. O Toscana viveu principalmente de gente que gostava de coabitar em sociedade em vez de grutas e tocas de palha. Eles foram meus vizinhos a certa altura, hoje tomaram o meu conselho e encontram-se a residir algures num local em que não se acorda às 9 da manhã com um comboio de português fora de prazo proclamado em alto e bom som à mulher, descrevendo as suas actividades com o amante de forma de tal modo pejorativa que a obriga a retorquir com iguais difamações acerca do caso amoroso entre o anterior e a empregada doméstica, que de momento está a parir o seu filho aos 3 meses com a ponta de um cabide de aço.

Há poucas semanas pensava que pessoas eu levaria aos meus anos no Toscana (invariavelmente um jantar teria que ser lá feito). Hoje, ou ontem, que entretanto já são duas da manhã, penso que tal saga acabou tão bem quanto começou, comigo e os dois amigos que me acompanharam na grande jornada que se iniciou no secundário. Talvez o tenha visitado, o melhor restaurante de sempre, antes disso, certamente que as minhas memórias são mais vivas apenas nos jantares onde de tudo se falou, onde três pessoas cresceram sob a luz de uns candeeiros muito engraçados e sobre pizas, apelidadas por uma ex nascida na Itália como “as mais parecidas com as melhores italianas”. Especialmente na ausência de indivíduos que não sabem colocar correctamente bonés, têm apenas frio numa perna e cuja parésia facial os impede de falar português correcto.

É absoluto que faltam imensos elementos neste modesto comentário, seja pela imensidão de histórias que nasceram no Toscana ou porque metade do meu cérebro já está a dormir há hora e meia, deixando-me pouco mais inteligente e apto que um símio ou um bloquista. Peço perdão, perdão pelo que não contei, provavelmente ouvi-lo-ão pela minha boca, e pela vontade que dei a alguns de ir a este fantástico restaurante, que nunca terão essa oportunidade. Esses são os mais infortunados, que nunca saberão que aqui, na terra em que vivo, um sitio decente não é impossível, não é proibido pelo local em si mas sim porque não há vontade, não existem pessoas que o queiram fazer.

E o pior de tudo, todas as que o fizeram estão a arranhar a porta de desespero para cair daqui para fora.

Tanto se anuncia hoje a partida de magna obra como mais um passo na queda do meu poiso, antro de desesperados e deprimidos, defuntos, ladrões, homicidas e comunas… a maioria do SLB.

Como últimas palavras só quero dizer “obrigado” ao [nome do dono que não vos interessa saber] por tudo, fizeste algo de inédito por aqui e espero que o teu próximo projecto seja tão bom e tão nobre quanto este. E inserido num sitio em que saibam apreciar tais atributos para não começarem a surgir cabelos brancos!